Com a nova regulamentação nos fundos de investimento, que permite a aplicação de parte dos recursos em ativos no exterior, os brasileiros estão cada vez mais interessados em saber quais as boas opções que existem fora do país. Para atender essa nova demanda, o Banif Investment Banking irá montar uma área de análise de empresas no México. A equipe terá cinco analistas, todos mexicanos, e o chefe de análise será o brasileiro Roger Oey, até então analista de telefonia do Banif no Brasil. O escritório estará pronto até o fim do ano e o projeto é analisar de lá as 68 principais companhias mexicanas de capital aberto. Hoje, o banco cobre apenas 10 empresas mexicanas e do próprio escritório no Brasil.
"Os clientes estão muito interessados em investir fora do Brasil, a começar pela América Latina, por causa da proximidade, e dentro da região há uma procura especial pelo México", diz a chefe de análise do Banif para América Latina, Catarina Pedrosa. Seria impossível fazer uma cobertura de tantas companhias à distância, avalia. "Faríamos um trabalho superficial, que não é o objetivo", afirma ela. O interesse de aplicar fora do país parte principalmente dos gestores independentes de fundos multimercados e de grandes fortunas ("family offices"). Segundo a executiva, há alguns "family offices" interessados em investir até no Egito".
Entre as empresas mexicanas que o Banif fará análise estão gigantes como as telefônicas América Móvil e Telmex e as companhias de consumo Femsa, Kimberly Clark México e Grupo Televisa.
Dentro da América Latina, o banco já tem um analista e um economista na Argentina, que hoje cobrem apenas três empresas locais e passarão a analisar 11. Já no Chile, são analisadas só duas companhias de varejo, pelo escritório do Brasil, e passarão a ser dez, mas ainda por aqui. Há planos de mais tarde começar uma cobertura pontual de algumas empresas na Colômbia e no Peru, mas nada com o tamanho da estrutura montada no México.
"Depois do Brasil, o mercado de capitais mexicano é o mais importante dentro da América Latina, faz todo o sentido estarmos lá se queremos ter uma cobertura mais ampla da região", diz o responsável pelo novo escritório, Roger Oey. O próprio Banif tem interesse em instituições mexicanas e está à procura de boas oportunidades de negócios no país vizinho, diz o economista-chefe, Marco Antonio de Paulo Maciel.
O Chile, apesar de ter a economia mais bem-sucedida dos países latinoamericanos, possui um mercado de capitais pequeno e as ações são consideradas caras quando comparadas aos papéis de outros países da região. "Historicamente, os fundos de pensão aplicam recursos no Chile, o que tornou a bolsa de lá cara", diz Oey. Já na Argentina, além de ser um mercado ainda menor, existe uma grande resistência do investidor em aplicar em ações de lá pelos fundamentos macroeconômicos frágeis do país.
Se existe interesse dos brasileiros em investir no México, os mexicanos também estão querendo aproveitar o crescimento da bolsa brasileira. Especialmente os fundos de pensão, que apenas em 2005 foram liberados para aplicar até 15% do patrimônio em ações, tanto no México quanto em outros países. Em abril deste ano, esse percentual permitido dobrou para 30%. Do que foi aplicado fora do México, a maioria dos recursos foi para os Estados Unidos, mas deve aos poucos migrar para terras mais rentáveis, como os emergentes.
Os investimentos na bolsa brasileira também foram postergados diante da expectativa de integração entre a Bovespa e a Bolsa do México, que possibilitaria a livre negociação entre as duas instituições. No entanto, a incompatibilidade entre a legislação dos dois países está dificultando a concretização do projeto, lembra Oey, o que deve fazer com que os mexicanos venham comprar as ações aqui, direto da fonte.
A proximidade do selo de grau de investimento do Brasil tem feito com que os investidores estrangeiros se interessem cada vez mais por papéis brasileiros. "Entre os principais países emergentes, o Brasil é o último que falta convergir para o 'investment grade' e exatamente por isso os ativos daqui ainda são mais baratos que os de outros mercados", lembra o economista-chefe, Marco Maciel.
O Banif também está reforçando a estrutura de análise no Brasil já se preparando para atender um número maior de clientes, inclusive, estrangeiros. Aumentou a equipe de 4 para 17 profissionais, entre analistas, economistas e assistentes, e o número de empresas brasileiras analisadas cresceu de 47 para 119. Dentro desse aumento, estará um bom número de novas companhias que nos últimos três anos estreou no pregão da Bovespa. "Muitas dessas estreantes são importantes dentro dos seus setores, possuem um porte considerável e não estão sendo cobertas pela maioria das corretoras", diz Catarina.
Quanto às turbulências que os mercados vêm passando desde o fim de julho, quando começaram os primeiros problemas no setor de hipotecas de alto risco americano, Catarina acredita que os fundamentos econômicos ainda não foram abalados, portanto, o Índice Bovespa tem condições de encerrar o ano em 61.100 pontos, que é a sua projeção para o índice antes das incertezas começarem.
Matéria publicada em 17/09/2007 no caderno Eu&Investimentos do jornal Valor Econômico